DIABETES MELLITUS EM FELINOS:
UMA CONSEQUÊNCIA DA OBESIDADE?
Introdução
A obesidade é uma condição clínica frequentemente observada na clínica de felinos e que tem despertado o
interesse da comunidade científica mundial na busca de intervenções que possam limitar sua ocorrência. Na
dependência de onde o estudo epidemiológico é realizado, a taxa de gatos obesos – Escore de Condição Corporal
(ECC)>5 varia de 11-63%.
Identificar a obesidade seria o primeiro passo para discutirmos o assunto com os tutores de gatos, no entanto, o
acúmulo de peso do gato não é reconhecido pela maioria dos tutores, cabendo ao clínico veterinário, no mínimo,
alertar sobre os riscos da obesidade para a saúde do gato. Surpreendentemente, estudos demonstram que o
clínico veterinário não está cumprindo esse papel, ou seja, muitos clínicos deixam de alertar os tutores de gatos
obesos sobre os problemas associados à obesidade.
Dietas ricas em carboidratos (amidos) já foram consideradas os grandes vilões no processo de ganho de peso dos
gatos, assim como as dietas ricas em gordura, no entanto, ao que tudo indica, independentemente do
macronutriente, a obesidade parece estar relacionada mais ao volume de alimento ingerido do que a um
macronutriente específico. Alguns tutores estabelecem um vínculo afetivo com o gato através da alimentação, esse
comportamento equivocado também pode contribuir de maneira significativa para o ganho de peso do gato.
Outros fatores de risco associados à obesidade em gatos são o estilo de vida, animais confinados e com hábitos
sedentários, gatos machos e castrados também são mais propensos à obesidade.
Consequências da Obesidade
Os gatos que estão acima do peso são mais propensos a doenças dermatológicas, doenças do trato urinário
inferior, doenças ortopédicas, doenças odontológicas, aumento de risco de morte durante anestesia, neoplasias e a
diabetes mellitus tipo 2, caracterizada por uma resistência à insulina e por uma disfunção crônica das células beta
do pâncreas.
A obesidade pode levar a hipertrofia e hiperplasia de adipócitos, hipóxia e necrose local com migração de
macrófagos e liberação de interleucinas pró-inflamatórias como interleucina 6, fator de necrose tumoral-alfa e
diminuição de adiponectina. Esse estado inflamatório que se estabelece no paciente obeso pode alterar o
metabolismo de gordura e carboidrato, além de potencializar a resistência à insulina. A cada um quilograma de
peso ganho pelo gato haverá uma redução de 30% na sensibilidade da insulina.
Uma vez estabelecendo-se um estado de hiperglicemia persistente, também chamado de glicotoxicidade, mais
células beta do pâncreas entrarão em apoptose, acarretando uma diminuição ainda maior na capacidade desse
pâncreas em produzir insulina. Outro fator que também contribui para a diminuição da capacidade funcional das
células beta é a deposição de substância amiloide no tecido pancreático.
O mecanismo envolvido no desenvolvimento da diabetes tipo 2 no gato obeso é multifatorial e bastante complexo,
nem todo gato acima do peso desenvolverá diabetes, mas certamente o risco existe.
Manifestações clínicas e diagnóstico da Diabetes Mellitus
Os gatos com diabetes mellitus (DM) vão apresentar manifestações clínicas clássicas como poliúria, polidipsia,
perda de peso, o apetite poderá estar normal, aumentado ou até diminuído nos gatos em cetoacidose. Como a DM
pode vir associada a outras enfermidades endócrinas, como hiperadrenocorticismo e acromegalia, o clínico deve
ficar atento às manifestações clínicas presentes nessas outras endocrinopatias.
O diagnóstico é realizado por meio da identificação das manifestações clínicas compatíveis com DM, achados
laboratoriais como hiperglicemia, usualmente valores > 300mg/dL, glicosúria, cetonúria também pode ser
identificada em gatos com um quadro mais avançado da doença. A dosagem de frutosamina sérica também pode
ser uma ferramenta útil no diagnóstico. Caso o clínico suspeite de alguma outra enfermidade concomitante a DM,
os testes diagnósticos específicos devem ser realizados para confirmação ou exclusão de comorbidades.
Tratamento
Após identificação da DM o clínico deve reconhecer o estágio da doença em que se encontra o paciente para um
direcionamento terapêutico mais efetivo.
Os gatos em cetoacidose requerem internação e tratamento intensivo com correção do desequilíbrio ácido-base e
eletrolítico. Nesses casos a insulina é utilizada para tentar corrigir a hiperglicemia mais rapidamente. Monitorar
atentamente o nível de potássio sérico que tende a cair com o início da insulinoterapia. Os gatos com DM e que
começam a fazer suporte nutricional podem ter síndrome da realimentação, portanto, o nível de fósforo sérico
precisa também ser monitorado com atenção nesses pacientes.
Os gatos que não se encontram em cetoacidose podem se beneficiar da nova classe de hipoglicemiantes orais da
família das gliflozinas. Existem atualmente duas gliflozinas aprovadas para uso em gatos, ainda não
comercializadas no Brasil. A bexagliflozina – Bexacat® e a velagliflozina – Senvelgo®. No Brasil pode-se utilizar
off-label a dapagliflozina – Forxiga® que é uma apresentação humana, embora não exista a formulação veterinária
da dapagliflozina, já existem trabalhos avaliando sua eficácia e dose segura para emprego em felinos.
No entanto, há consenso entre os clínicos de felinos, endocrinologistas e nutrólogos que o ponto mais importante
no tratamento dos gatos com DM reside no controle de peso, melhora da sensibilidade à insulina e recuperação de
células beta pancreáticas com reversão do estado de glicotoxicidade.
A dieta ideal para o gato diabético deve promover e ajudar na manutenção do peso ideal para a espécie, além de
otimizar a composição de nutrientes para um controle glicêmico adequado e aumentar as chances de uma
remissão da DM.
Durante o período de acompanhamento do paciente em programa de redução calórica alimentar, o peso deve ser
monitorado a cada 2-4 semanas e a quantidade de alimento deve ser ajustada para que o paciente perca entre 0,5-
1% do peso por semana. O número de calorias oferecidas pode ser reduzido ou aumentado em até 10% se o
paciente não estiver perdendo peso ou se estiver perdendo peso rapidamente.
Embora não esteja bem definido o teor ideal de amido na dieta de um gato com DM em processo de redução de
peso, sugere-se uma proporção menor de amido em uma quantidade adequada para DM.
Sempre que possível, a recomendação é empregarmos alimentos úmidos, por promover um maior aporte hídrico e
induzir mais saciedade, além disso, esse tipo de alimento também tem uma restrição maior de amido na sua
composição.
Portanto, a conclusão a que se chega é que a melhor forma de prevenção da DM em gatos é evitar a obesidade,
uma vez que outros fatores de risco potencialmente envolvidos são de detecção mais complexa. Cabe ao médicoveterinário reforçar aos tutores de gatos todos os malefícios associados ao excesso de peso e que a prevenção da
obesidade seria a melhor arma no controle desses problemas.
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