A MERCANTILIZAÇÃO E A VOCAÇÃO
DO MÉDICO VETERINÁRIO
Resumo
Este artigo explora a dualidade da profissão veterinária entre a vocação para o cuidado animal e a busca pelo crescimento econômico. Para contextualizar, traça-se um panorama histórico desde o mercantilismo do século XVI até as teorias de John Locke, Adam Smith e John Maynard Keynes. Analisou-se o cenário atual do mercado veterinário, destacando a ascensão de grandes corporações como VCA-Petcare, Cobasi, Petz, Wevets e Petlove, e o impacto dos planos de saúde nas clínicas independentes. O impacto desse fenômeno nos profissionais que optam por manter negócios de menor porte também é abordado. Além disso, faz-se uma menção ao mercado veterinário nos Estados Unidos nos últimos 40 anos, desde o pioneirismo do grupo VCA Inc. na década de 1980, e do mercado Europeu, até o mercado atual, traçando paralelos com o mercado brasileiro. O estudo finaliza com uma analogia ao que ocorreu no mercado de farmácias e pequenos comércios, destacando os riscos e a possibilidade de coexistência entre diferentes perfis de atuação.
- Fundamentos Históricos: Do Mercantilismo ao Liberalismo Econômico
O mercantilismo, predominante na Europa entre os séculos XVI e XVIII, enfatizou o acúmulo de riquezas e o fortalecimento estatal, promovendo a expansão dos mercados e a centralização econômica. No século XVIII, John Locke defendeu o direito à propriedade privada e a importância do trabalho como base da riqueza, princípios que refletem na autonomia dos veterinários que gerenciam seus próprios negócios. No século XVIII, Adam Smith, em “A Riqueza das Nações”, dinâmica a metáfora da “mão invisível”, indicando que o interesse individual pode promover o bem-estar coletivo, conceito aplicável ao cenário veterinário atual, onde a concorrência estimula serviços de qualidade. No século XX, John Maynard Keynes destacou a necessidade de intervenção estatal para corrigir falhas de mercado, especialmente durante crises econômicas. Pode-se fazer um paralelo da importância da regulação governamental para equilibrar a competição entre grandes corporações no meio veterinário e pequenas clínicas.
- O Mercado Veterinário Contemporâneo
Nas últimas décadas, o mercado veterinário passou por transformações significativas, com a ascensão de grandes corporações como Petlove, Wevets, VCA-Petcare, Cobasi, Petz entre outros. A Petlove, fundada em 1999, destaca-se no segmento de planos de saúde para animais, oferecendo acesso B2C a cuidados veterinários de qualidade mediante uma assinatura mensal. Embora essa estratégia seja ampla, representa desafios para clínicas de menor porte, que precisam adaptar seus modelos de negócios para manter a competitividade.
Nos Estados Unidos, o grupo VCA Inc., fundado em 1986, iniciou a consolidação do setor por meio da aquisição de clínicas independentes e padronização dos serviços. O Banfield Pet Hospital, inaugurado em 1955, também teve forte influência, especialmente após a parceria com o PetSmart em 1994, permitindo a abertura de clínicas dentro das lojas da rede. Posteriormente, o Banfield foi adquirido pela Mars em 2007, que também adquiriu recentemente o VCA Inc. Apesar destes grandes grupos, o mercado americano permanece fragmentado, oferecendo espaço para clínicas menores que se diferenciam pelo atendimento personalizado. O mesmo ocorre com o Brasil.
Na Europa, a aquisição de clínicas veterinárias ganhou força na década de 1990 e intensificou-se nos anos 2000. Grupos como IVC Evidensia, AniCura e CVS Group lideraram esse processo, criando redes integradas que oferecem serviços padronizados e eficientes.
No Brasil, o crescimento de grandes corporações segue trajetórias semelhantes, exigindo que clínicas independentes busquem novas estratégia para atrair e fidelizar cliente, destacando-se o vínculo com a comunidade local e a qualidade do atendimento.
- Desafios para o Médico Veterinário: Preservação da essência profissional em um mercado mercantilizado
A mercantilização crescente do setor veterinário e a expansão de grandes corporações geram preocupações entre os profissionais sobre a possível perda da essência de sua vocação: o cuidado e a cura dos animais. Há receitas de que a pressão por metas financeiras e a padronização dos serviços podem comprometer a qualidade do atendimento e a relação personalizada com os clientes e seus animais de estimação. Além disso, a popularização de planos de saúde para animais, embora ofereça amplo o acesso aos serviços veterinários, pode representar desafios para pequenas clínicas, que precisam adaptar-se a modelos de negócios impostos por grandes empresas, exigindo investimentos significativos em infraestrutura e mudanças nos processos de gestão.
- Analogias com o Mercado de Farmácias e Pequenos Comércios
O processo de concentração do mercado observado no setor veterinário não é exclusivo. O mercado de farmácias, por exemplo, passou por transformações semelhantes, com a ascensão de redes como Drogasil, Pague Menos e Raia, oferecendo preços mais baixos e maior variedade de produtos. Como resultado, muitas farmácias de bairro fecharam, enquanto outras sobreviveram ao se diferenciarem pelo atendimento personalizado. Situação semelhante ocorreu com supermercados, onde grandes redes dominaram o mercado, mas pequenos estabelecimentos continuam existindo ao oferecer produtos selecionados e atendimento mais próximo da comunidade.
- Conclusão
A profissão de médico veterinário enfrenta o desafio de equilibrar a vocação para o cuidado animal com as exigências de um mercado em constante transformação. Uma análise histórica, desde o mercantilismo até as teorias econômicas modernas, evidencia que a busca pelo crescimento econômico é uma constante. No entanto, é crucial que o setor veterinário encontre equilíbrio que permita a coexistência saudável e sustentável entre grandes corporações e pequenos negócios. Experiências internacionais demonstram que, mesmo em mercados consolidados, há espaço para clínicas menores que se destacam pelo atendimento de qualidade e altamente customizado. A analogia com os mercados de farmácias e supermercados reforça a importância da diferenciação e da proximidade com os clientes como estratégias para garantir a sobrevivência em um ambiente competitivo. A adaptação a modelos de negócios impostos por grandes empresas pode exigir investimentos significativos em infraestrutura e tecnologia, além de mudanças nos processos de gestão. Profissionais que não se sentem preparados para essas transformações podem enfrentar dificuldades para se manterem competitivos, o que pode gerar um sentimento de inseguranças e desvalorização profissional.
O futuro do setor veterinário dependerá da capacidade de seus profissionais em equilibrar sua vocação com as demandas do mercado, contribuindo para um setor mais ético, humano e sustentável.
O que não se pode fazer é permanecer estático no romantismo da Medicina Veterinária de outrora, sem a busca de novos conhecimentos em gestão.